Uma reflexão sobre Portugal, os portugueses. a figura mítica de D. Sebastião é aqui trazida ao convívio dos públicos nesta tragédia, que reflecte a intriga e a luta política no seio do reino, a figura do Rei, o papel da avó Catarina de Áustria e o do seu tio-avô, cardeal D. Henrique, dos seus mestres e do povo, da sua própria personalidade e acção no que conduziu a Alcácer-Quibir, do seu desaparecimento à atribulada sucessão e perda da independência de Castela, dando início a uma matriz identitária do nosso pensamento colectivo, que nos acompanha até hoje.
A relevância da nossa capacidade de espera e sofrimento, enquanto povo e nação, assenta em percepções e presságios inquisitoriais, aliada a essa promessa sebástica de um quinto império messiânico, surgido do nevoeiro, desde Bandarra a Pessoa, de Natália a Cesariny, à crónica do Rei Sebastião e a outras leituras coevas. E como não conseguimos sair ainda desse nevoeiro mental.
Esta criação é, também, pela urgência dos tempos, uma tentativa de matar o Mito. Um aturado, informado e culto trabalho de escrita para a criação de um espectáculo que tenta, mais uma vez, libertar-nos da bruma.
Depois de Pára-me de Repente e Oratória do Vento / Lenda de santa Maria Egipcíaca, esta é a terceira colaboração de fôlego com o poeta e dramaturgo Vergilio Alberto Vieira, num caminho que há muito iniciamos e que se não esgota aqui.