O longo verão de 2010 foi passado com o pai na Sicília. com um apertado prazo de entrega do novo romance, o escritor de sucesso pouco (ou nada) acompanhou a filha em idas à praia ou passeios, além de a prender horas infindas em casa, obrigando-a a digitar o que lhe ditava. O prometido programa de férias a dois (após o divórcio dos pais), resumiu-se à solidão de Sophia nas raras saídas e idas à praia, e levou-a a tomar conhecimento de factos da vida para os quais ainda não tinha idade suficiente – quer através do conteúdo do seu trabalho de secretária, quer, noite alta, quando ouvia o pai a fazer sexo com mulheres variadas e desconhecidas que ele engatava nos bares noturnos da vila balnear.
Estamos agora no verão de 2020, em Londres. Sophia é uma jovem dramaturga com a sua nova peça em cena. As críticas têm sido excecionais, mas o pai, o autor famoso cujos romances envelheceram mal, tem evitado lê-las. Porém, acaba por ir ver a peça, desconhecendo que esta se centra nas férias que ambos haviam passado juntos na Sicília. Enquanto espera o veredito do pai, Sophia almoça com a mãe, discutindo e esmiuçando as relações familiares – a mãe, ligeiramente embriagada; Sophia, profundamente angustiada.
Com uma magnífica precisão de linguagem e mudanças de espaço e tempo sem costuras, Jo Hamya encaixa a narrativa na duração de apenas uma récita da peça, dando a ver a zanga entre um pai e uma filha, as heranças difíceis que cada geração tem de gerir e a dificuldade de cultivar empatia num mundo que muda à velocidade da luz.
Um romance extremamente inteligente, por vezes cómico e, inesperadamente, ternurento.