É certo e sabido que as crianças são donas de fantasiosas moleirinhas, mas o jovem protagonista deste enredo — que pode muito bem ser e não ser o narrador e, desconfiamos nós, se confunde com o autor do livro — tem mais de uma dezena de razões para considerar a Lisboa da sua infância o centro do universo. A vida desta gente saboreia-se nas ruas, outro tanto em casas por onde entram os ares do Tejo, numa altura em que se escoiceavam reprubicanos (é assim mesmo) e talassas (são os outros, os das coroas). Ao nível dos olhos de Gabriel — não havíamos dito?, é o nosso rapazola herói —, compõe-se um mosaico agridoce da história dos grandes e pequenos episódios do início o século vinte: as belas horas de brincadeira, dentro e fora do colégio, no animatógrafo ou no teatro; tremores de terra, incêndios e cometas que rasgam os céus; deliciosas croniquetas de personagens alcunhadas, vizinhos, tios e tias que se confundem com primos, avós galegos e portugueses. E tudo sob esse grande arco desde a monarquia que sobreveio à pontaria de Buíça, até que «se visse a doirada manhã de Outubro e insurreição». No fundo, no fundo, afirmarmos ser A Escola do Paraíso (1960) um dos melhores romances da língua portuguesa, sem tirar nem pôr.