Esta é a biografia de uma mulher admirável, um caso único no jornalismo que se fez em Portugal durante boa parte do século XX. Mas este é também um nome desconhecido na história da imprensa nacional.
A jornalista inglesa Jo Shercliff - que assinava Jose Shercliff - viveu durante mais de quatro décadas em Portugal. Antes disso, já era um nome respeitado na imprensa britânica: cobriu a Guerra Civil Espanhola, esteve na Linha Maginot durante a II Guerra Mundial, foi durante anos correspondente do Daily Herald em Paris. Na capital francesa, conheceu Jane Avril, a dançarina de can-can imortalizada por Toulouse-Lautrec. Tornou-se amiga da dançarina, cuja biografia escreveu.
Com o avanço das tropas de Hitler para Paris, Shercliff pediu ao seu jornal que a enviasse como correspondente para os Estados Unidos. Chegou a Lisboa em 1940 e nunca mais deixou Portugal, país que adotou como seu e que compreendeu como poucos. «Os portugueses conquistam-se com uma palmadinha nas costas e com amizade: é impossível vencê-los à força», disse um dia ao jornalista Manuel Beça Múrias, a quem confiou o espólio que reuniu durante toda a sua vida. Em boa hora, a família de Múrias encaminhou-o para a Fundação Mário Soares e Maria Barroso, onde os autores o investigaram.
Conhecida por Mário Soares e por Raul Rego como a nossa miss, Jo Shercliff foi responsável por enviar para o exterior as informações que os jornalistas portugueses não podiam tratar. Embora a mantivesse sob constante e apertada vigilância, a polícia política não podia dar-se ao luxo de hostilizar aquela que era responsável por quase todo o noticiário sobre Portugal difundido pela BBC, pela Associated Press ou por The Times. Na qualidade de correspondente desses meios de comunicação, Jo Shercliff relatou como ninguém o que… de bom e de mau ocorria no país.