Nasci na roça, em uma vida simples, onde o pouco era tudo que tínhamos, mas onde o amor, mesmo com falhas, também existia.
Fui a primeira filha, a primeira neta, a primeira sobrinha. Muito querida por todos. Cresci rodeada de gente, mas ao mesmo tempo, muitas vezes, me senti sozinha dentro de mim.
Desde muito pequena, a vida já me ensinava que nada vinha fácil.
Com apenas 5 anos de idade, eu já trabalhava. Pegava capim, feijão, ajudava no que fosse preciso, tudo para ter o meu próprio dinheirinho e comprar minhas coisinhas. Não era uma obrigação que alguém me impunha, era algo que vinha de dentro de mim. Eu queria ter, eu queria conquistar.
A minha infância não teve brinquedos comprados em loja. Meus brinquedos eram simples, mas cheios de imaginação. Quando um prato quebrava, eu ficava feliz, porque juntava os cacos e dizia que eram meus pratinhos de brincar. Minhas bonecas eram feitas de pano pela minha mãe, ou até mesmo espigas de milho, que eu transformava em bonecas com cabelo.
E, mesmo assim, eu era feliz.
Aos 9 anos, ganhei uma boneca de verdade. Linda. Até hoje eu lembro do cheiro dela, um cheiro doce, parecia chiclete. Aquela boneca marcou a minha vida, porque foi algo que eu nunca tinha tido. Eu também ajudava meu pai. Cuidava das ovelhas, levava os bodes, caía, levantava, machucava os joelhos… mas continuava. Sempre continuei.
A educação que tive foi dura. Meu pai era rígido, muito rígido. Naquela época, era assim. Se um vizinho dissesse que fizemos algo errado, mesmo que não tivéssemos feito, ele nos castigava. Dizia que era para mostrar que não aceitava erro.
E nós crescemos assim.
Sem muito carinho demonstrado, mas com muita força construída.
Hoje eu entendo que tudo aquilo me moldou. Cada dificuldade, cada queda, cada lágrima… me transformou na mulher que eu sou hoje.
Aquela menina da roça, que brincava com cacos de vidro e bonecas de milho, nunca saiu de dentro de mim.
E é dela que vem a minha força.